Nayana

Quando Veríssimo concebeu a crônica intitulada O Marido do Doutor Pompeu, ele, dentro de sua vivência, só poderia ter sido capaz de criar uma obra que retratasse o ideal de casamento masculino. Somente um outro homem conseguiria compreender as necessidades de um homem ao chegar cansado do trabalho e desejar encontrar apenas uma casa limpa, a comida feita e a possibilidade pacífica de sentar-se e relaxar sem a preocupação de ser o macho alfa daquele habitat.
Claro que gênero é construção social, e assim o sendo, é neste contexto mesmo que me encontro aqui pensando neste conto e na minha própria experiência atual. A de estar casada com uma mulher. Não o casamento em seu sentido tradicional de duas pessoas que decidem passar o resto da vida juntas por se amarem, aquele amor romântico e carnal. Mas o casamento da decisão de dividir um teto, as contas e a vida, por que não, com outra pessoa.
Tendo sido eu construída socialmente para pertencer ao gênero feminino, apesar de toda resistência ao longo dos anos, assim como para minha nova esposa, tenho me encontrado em situações que jamais poderíamos termos vivido em nossos casamentos anteriores, estes sim, nascidos da paixão e da ilusão de uma possibilidade romântica de amor eterno.
Jamais poderia eu esperar ter recebido de um homem um singelo presente quanto uma base líquida exatamente do tom da minha pele, que ela encontrou ali em meio as coisas dela. Ou a consciência de cuidados coletivos do lar, sem a cobrança, sem a ideia do ajudante, mas sim a real partilha, automática que nos libera do trabalho da organização mental, tão exaustivo.
A facilidade com a qual a confiança nasce, pois não existe a mínima possibilidade de ser tratada como menos, como objeto, como mucama, como subespécie. A realização da verdadeira igualdade, dentro de uma relação. 
E com o bônus da liberdade de ser quem se é, pois o respeito que existe e é mútuo, é verdadeiro e sublime, como somente entre pares pode existir.
Portanto, embora divertida a leitura de Veríssimo e sua obra tão fresca de conceito, é na realidade dos dias atuais que encontro uma autêntica capacidade de sorrir.

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